quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Notre-Dame de Paris



Finalmente desencantei e li um autor que estava a minha espera há alguns anos: Victor Hugo. Entusiasta da literatura canônica francesa que sou, incluíra esse autor na minha lista de "querências", como chama a Ju, mas o encontro demorou a acontecer. Aproveitei que ele seria a estrela da vez no fórum e que eu teria uma bela discussão sobre ele , se decidisse participar, para promover de vez essa leitura tão postergada.

Notre-Dame de Paris foi um verdadeiro presente, e a primeira questão que se impõe é a opção esdrúxula de alguns editores e tradutores em renomear o livro para O Corcunda de Notre-Dame. É evidente no texto que o romance trata da Paris medieval, e que Quasímodo não é mais importante que qualquer dos personagens principais. Cada um desses exerce um papel simbólico dentro da trama construída por Hugo.

O romance tem caráter histórico e traça um verdadeiro panorama da Paris do século XV, com direito a longos e minuciosos capítulos sobre história e arquitetura. A propósito, se um defeito pode ser apontado no livro, esse seria a quebra de ritmo causada por esses capítulos mais arrastados e informativos, embora eles até sejam bastante aceitáveis face aos meus interesses.

Apesar da sinopse já bem batida da relação dependente, obsessiva e violenta entre o corcunda Quasímodo, o arquidiácono Claude Frollo - seu pai adotivo -, e a jovem cigana Esmeralda, que terminará num desdobramento catastrófico para os três, o romance é bem mais que isso. Victor Hugo  busca elucidar peculiaridades do medievo, como a condição da mulher, os abusos da Igreja e da Coroa, o cariz ambíguo do imaginário da época, as transformações sócio-políticas e seus desdobramentos na arte e no espaço urbano. A vulnerabilidade da cigana Esmeralda e da reclusa do Buraco dos Ratos, o misticismo de Claude Frollo, o híbrido de monstruosidade e ternura de Quasímodo - cada um desses elementos atua simbolicamente na apresentação dessas peculiaridades.

Por ser um romance panorâmico, Notre-Dame de Paris não permite que os personagens ganhem a força necessária para se tornarem apaixonantes, com exceção do filósofo-mambembe Pierre Gringoire, cujas falas cômicas e mordazes se confundem com as do narrador. Victor Hugo tece inúmeras críticas, mas o faz com uma divertida sagacidade que, aliada a seu talento narrativo, torna deliciosa a leitura. Descobri nesse autor um verdadeiro mestre das comparações e metáforas.

Há que se relevar a postura de narrador-paizinho, que busca conduzir o leitor pela mão em direção ao que se deve concluir e compreender. Esse traço, incômodo ao leitor  contemporâneo mais afeito às inferências, era típico dos primeiros momentos do gênero romance, já que não se sabia, à época, se o leitor era capaz de discernir sozinho entre o certo e o errado, entre o moral e o imoral, diante de um texto com pretensão realista (a abordagem realista é uma das premissas do gênero). Ou seja, não se sabia a que tipo de influência o leitor era suscetível, nem se ele estava apto a compreender por si mesmo o que era considerado condenável ou não na história narrada.

Considerada essa ressalva, temos um clássico completo: altamente informativo, instigante, primorosamente escrito. Se algum de vocês se interessou, sugiro que não esperem tanto quanto eu.

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