Finalmente
desencantei e li um autor que estava a minha espera há alguns anos:
Victor Hugo. Entusiasta da literatura canônica francesa que sou,
incluíra esse autor na minha lista de "querências", como chama a Ju,
mas o encontro demorou a acontecer. Aproveitei que ele seria a estrela
da vez no fórum e que eu teria uma bela discussão sobre ele , se
decidisse participar, para promover de vez essa leitura tão postergada.
Notre-Dame de Paris
foi um verdadeiro presente, e a primeira questão que se impõe é a opção
esdrúxula de alguns editores e tradutores em renomear o livro para O Corcunda de Notre-Dame.
É evidente no texto que o romance trata da Paris medieval, e que
Quasímodo não é mais importante que qualquer dos personagens principais.
Cada um desses exerce um papel simbólico dentro da trama construída por
Hugo.
O
romance tem caráter histórico e traça um verdadeiro panorama da Paris
do século XV, com direito a longos e minuciosos capítulos sobre história
e arquitetura. A propósito, se um defeito pode ser apontado no livro,
esse seria a quebra de ritmo causada por esses capítulos mais arrastados
e informativos, embora eles até sejam bastante aceitáveis face aos meus
interesses.
Apesar
da sinopse já bem batida da relação dependente, obsessiva e violenta
entre o corcunda Quasímodo, o arquidiácono Claude Frollo - seu pai
adotivo -, e a jovem cigana Esmeralda, que terminará num desdobramento
catastrófico para os três, o romance é bem mais que isso. Victor Hugo
busca elucidar peculiaridades do medievo, como a condição da mulher, os
abusos da Igreja e da Coroa, o cariz ambíguo do imaginário da época, as
transformações sócio-políticas e seus desdobramentos na arte e no
espaço urbano. A vulnerabilidade da cigana Esmeralda e da reclusa do
Buraco dos Ratos, o misticismo de Claude Frollo, o híbrido de
monstruosidade e ternura de Quasímodo - cada um desses elementos atua
simbolicamente na apresentação dessas peculiaridades.
Por ser um romance panorâmico, Notre-Dame de Paris
não permite que os personagens ganhem a força necessária para se
tornarem apaixonantes, com exceção do filósofo-mambembe Pierre
Gringoire, cujas falas cômicas e mordazes se confundem com as do
narrador. Victor Hugo tece inúmeras críticas, mas o faz com uma
divertida sagacidade que, aliada a seu talento narrativo, torna
deliciosa a leitura. Descobri nesse autor um verdadeiro mestre das
comparações e metáforas.
Há
que se relevar a postura de narrador-paizinho, que busca conduzir o
leitor pela mão em direção ao que se deve concluir e compreender. Esse
traço, incômodo ao leitor contemporâneo mais afeito às inferências, era
típico dos primeiros momentos do gênero romance, já que não se sabia, à
época, se o leitor era capaz de discernir sozinho entre o certo e o
errado, entre o moral e o imoral, diante de um texto com pretensão
realista (a abordagem realista é uma das premissas do gênero). Ou seja,
não se sabia a que tipo de influência o leitor era suscetível, nem se
ele estava apto a compreender por si mesmo o que era considerado
condenável ou não na história narrada.

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