Pode-se dizer que Octaedro
segue o tom de As armas secretas, na medida em que põe somente um pé (ou
alguns dedos) no fantástico, e se apóia mais fortemente nos absurdos e
incoerências da psique humana. Os personagens de “Verão”, “Manuscrito
achado num bolso” e “Pescoço de gatinho preto” assombram mais por suas
reações inesperadas que por qualquer habilidade inaudita. Esta comparece em “As
fases de severo”, talvez o conto de menor fôlego do livro. O narrador não
confiável reaparece, despistando e, por vezes, até desorientando o leitor com
suas hesitações, incertezas e parcialidade.
Coletânea de estilo sofisticado, Octaedro
tem textos um tanto herméticos: desafia o leitor, instiga, joga com ele, dá uma
trapaceada, não ata as pontas da narrativa. Atá-las, no entanto, é apenas um
caminho que pode ou não ser seguido, uma vez que as incongruências da narração,
do brainstorm do narrador, valem já por seu valor estético. Em
“Os passos no rastro”, um acadêmico empreende uma investigação de si
mesmo, conduzindo-nos ponto a ponto da segurança à epifania, e à
tentativa de compreender suas escolhas equivocadas. Em “Aí, mas onde,
quando”,
o narrador quer nos convencer de que escreve sobre um fato porque o
conhece
bem, mas a cada descrição, a cada comentário, suspeitamos o contrário e a
deriva nos espreita. Ao longo desse difícil conto, perguntamo-nos o que
deixamos passar, onde perdemos as pistas. No entanto, surge a questão: é
mister
que entendamos? Tais jogos não seriam forjados exatamente para nos
desorientar?
A cada livro, Cortázar parece querer criar uma coleção de
idiossincrasias, uma
vitrine de narrativas e personagens inusitados que nos enlaçam pelo
encanto ou
pelo espanto.
Por exemplo: é com graça e lirismo que “Liliana chorando”
abre o livro. Nesse conto, o protagonista, internado com uma doença terminal,
imagina, com precisão e sentimento, o destino de seus entes queridos após a sua
morte. Em “Manuscrito achado num bolso”, o narrador-personagem cria um jogo que termina por
dominá-lo de tal forma que ele não mais pode operar fora de suas leis. Seu
desafio é conseguir que a outra parte aceite o trato e também as acolha.
Octaedro encerra oito
contos, mas oferece também diferentes ângulos sobre situações afins: a doença, a
proximidade da morte, a interação entre estranhos no metrô, o flerte. Oito
maneiras de ver a mente humana se apresentam. Todas inusitadas. Elas rodeiam os
mesmos temas, mas não pretendem concluir nada. Tentam, antes, sugerir as
possibilidades mais extravagantes:
a) a
resposta não existe; ou
b) a resposta sempre muda.

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