O futuro da arte cinematográfica é a negação do seu presente. (Dziga Vertov)
Para vocês, o cinema é um espetáculo. Para mim é quase um meio de compreender o mundo. (Maiakovski)
Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno!
Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria! (Álvaro de Campos)
Se
hoje assistimos sem grandes estranhamentos aos takes acelerados e
vertiginosos dos filmes de ação, o mesmo não pode ser dito sobre o
público dos filmes da década de 20. O processo de adaptação do olhar
humano às diferentes tecnologias é gradual e um tanto traumático. Quando
a fotografia foi inventada, as pessoas mal se reconheciam nos retratos.
Algumas não se deixavam fotografar temendo que a câmera lhes capturasse
a alma. A apreensão da paisagem à época do surgimento do trem a vapor
foi também uma dificuldade a ser superada. Não seria diferente com o
cinema. É conhecida a história dos espectadores que correram assustados
durante a exibição do filme "A chegada do trem à estação", dos irmãos
Lumiére, porque o veículo avançava em direção à tela.
Essa pequena introdução serve para que possamos compreender o quão vanguardista foi o cineasta russo Dziga Vertov com o filme O homem com a câmera,
de 1929. Na introdução da película,Vertov explica que o que estava para
ser exibido se tratava de uma experiência de filmagem que buscava
independência dos formatos teatrais e literários, abdicando dos
elementos tradicionais e simbólicos do cinema de então: personagens,
falas, cenário ou enredo. A ideia era retratar 24 horas do dia de uma
cidade russa (embora ele tenha demorado quatro anos filmando, em Moscou,
Kiev e Odessa). Acompanhado somente de trilha sonora, o filme retrata
cenas corriqueiras da cidade moderna: anônimos dormindo, trabalhando,
divertindo-se, exercitando-se, casando, nascendo, morrendo. Multidões.
Ônibus, trens, aviões, barcos, máquinas funcionando. Prédios, praias,
avenidas. A vida acontecendo. O filme começa com um cinema vazio, o
público entrando e ocupando os lugares para assistir a um filme - o
filme que estamos assistindo.
Vertov propunha que o cinema era o veículo por excelência da modernidade, que toda contingência, todo movimento e rapidez da vida real poderiam ser mostrados com o máximo de realismo pelo cinematógrafo. Nesse sentido, o filme ganha certo ar político de elogio da industrialização moderna, além de beber nas fontes dos primeiros movimentos modernistas da arte, como o construtivismo, o futurismo e o poema-fato de Maiakovski. Vertov era integrante do movimento "cinema-verdade", que se interessava pela retratação da vida real, de forma documental e sem simbolismos.
Vertov propunha que o cinema era o veículo por excelência da modernidade, que toda contingência, todo movimento e rapidez da vida real poderiam ser mostrados com o máximo de realismo pelo cinematógrafo. Nesse sentido, o filme ganha certo ar político de elogio da industrialização moderna, além de beber nas fontes dos primeiros movimentos modernistas da arte, como o construtivismo, o futurismo e o poema-fato de Maiakovski. Vertov era integrante do movimento "cinema-verdade", que se interessava pela retratação da vida real, de forma documental e sem simbolismos.
Se
por todas as questões citadas, o filme já se coloca bem à frente de seu
tempo, que dizer de toda a metalinguagem nele desenvolvida? Porque
Vertov mostra o próprio cinegrafista perambulando pela cidade com a
câmera, filmando; assim como os editores manuseando os celulóides,
selecionando. Revela, deste modo, que a objetiva só mostra aquilo que a
pessoa por trás da câmera mira, e que a escolha das cenas e sua ordem é
que norteará a percepção do público. Não por acaso, o diretor brinca com
"narrativa" traçando paralelismos entre olhos e janelas que se abrem,
entre pianos e máquinas de escrever, cria montagens e sobreposições
inusitadas, manipula a imagem com congelamentos, acelerações e
retrocessos de exibição, tudo de modo a evidenciar seu ofício, sua
intervenção no que é mostrado. É a realidade do que é filmado
confrontada com a realidade do que é mostrado que compõe a realidade
absoluta que o "cinema-verdade pretendia"? Ou Vertov queria nos dizer
que a realidade não se deixa apreender e tudo é representação?
O homem com a câmera
dividiu as opiniões à época de seu lançamento e houve quem o detestasse
ou não o compreendesse, como o crítico do New York Times, Mordaunt
Hall, que afirmou que "O produtor, Dziga Vertov, não leva em
consideração que o olho humano se fixa por um determinado espaço de
tempo a fim de manter a atenção." Recentemente, a película figurou entre
os dez primeiros na lista de melhores filmes da Sight and Sound,
e é inegável que ele tenha inaugurado uma série de técnicas
cinematográficas, servindo de referência para muitos estilos
posteriores.

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