Acho que dentre as manifestações
artísticas, a música é a minha favorita. Bate até mesmo a literatura,
ouso dizer. Durante algum tempo, considerei trabalhar com isso: tive
bandas, participei de corais, apresentei um programa furreco numa rádio
local, estudei violão. Meu malogro nessa empreitada rendeu algumas
conversas com a psicóloga com quem me consultava na época, por dois
motivos: o primeiro, mais simples e definitivo, é que não tenho talento.
O outro consiste na dificuldade que tenho em trabalhar com as coisas
que amo.
No
curto período em que me apresentei com as bandas, experimentei momentos
de considerável estresse e desconforto. Achava terrível que algo que me
soasse quase sagrado (a música em geral, não a música que eu fazia)
estivesse sendo maculado por procedimentos profanos como prazos,
reuniões, pagamentos ou o ajuste às exigências do freguês. Isso também
se demonstrou verdadeiro em relação à literatura, no período em que
lecionei. Eu achava um saco ter de categorizar textos brilhantes de modo
tão redutor e estanque, ter de ler continuamente obras pelas quais não
nutria nenhum amor ou admiração particulares só porque elas faziam
parte de um currículo a ser ministrado, ou então ir aos textos não por
prazer, mas para elaborar avaliações com eles. Era sacal!
Compreendo
perfeitamente que haja pessoas que precisam amar suas ocupações
profissionais. Apenas percebo que não sou uma delas. Gosto de
identificar com clareza quando o trabalho acaba e o lazer começa.
Contento-me com um emprego que banque o meu diletantismo, que me permita
comprar meus livros, ir a concertos, assistir a algumas dezenas de
filmes por ano. Não quero trabalhar com nenhuma dessas coisas.
O
primo de uma amiga minha desistiu da profissão de tatuador porque
estava farto dos desenhos horrendos que os clientes escolhiam. Um
professor que tive na Uerj, certa feita, nos disse que professores e
teóricos de literatura não possuem o direito de gostar dos textos.
Radical, mas faz algum sentido. O gosto pessoal desses profissionais não
pode ser a tônica de um ensaio ou de uma aula. Até pode influenciar a
escolha do texto analisado, mas todo o resto terá de ser fundamentado e
embasado com argumentos sólidos e bibliografia específica. Mesmo amando
os poemas de Cruz e Souza e tendo lhe dedicado a maior parte da minha
dissertação, sou obrigada a admitir que ele se restringiu bastante aos
mesmos temas e recursos, que não se afastou muito de umas poucas
questões.
Continuo
adorando o autor porque gosto é algo que dialoga com a nossa história. A
gente pode amar obras não necessariamente geniais porque se identifica
com elas em algum grau. Talvez seja um problema para os críticos. Eu me
sentiria meio patife em indicar, recebendo para isso, um filme ou livro
com base em razões meramente subjetivas. Lembro do Rubens Ewald Filho
reclamando da escalação da Kristen Stewart para determinado filme porque
ela era, além de inexpressiva, "queixuda". Vê-se que nem todos
compartilham dos meus pudores.
Até
gosto de estudar literatura, de escrever ensaios e resenhas. Faço-o com
entusiasmo surpreendente, especialmente quando não tenho prazo para
tal. Ok. Sejamos realistas: quem entrega qualquer coisa sem ter prazo?
A
questão é que encaro com serenidade as oito horas de burocracia diária
que pagam as minhas contas e o meu lazer. Posso até voltar para a minha
área, trabalhar com pesquisa ou algo similar. Só que isso não é uma
urgência na minha vida. Enquanto isso, posso me ocupar com comentários e
resenhas parciais e duvidosos aqui no blog. É de graça, ninguém está
pedindo a minha opinião, e é por isso que é divertido.
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