quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Só um trabalho

Acho que dentre as manifestações artísticas, a música é a minha favorita. Bate até mesmo a literatura, ouso dizer. Durante algum tempo, considerei trabalhar com isso: tive bandas, participei de corais, apresentei um programa furreco numa rádio local, estudei violão. Meu malogro nessa empreitada rendeu algumas conversas com a psicóloga com quem me consultava na época, por dois motivos: o primeiro, mais simples e definitivo, é que não tenho talento. O outro consiste na dificuldade que tenho em trabalhar com as coisas que amo.

No curto período em que me apresentei com as bandas, experimentei momentos de considerável estresse e desconforto. Achava terrível que algo que me soasse quase sagrado (a música em geral, não a música que eu fazia) estivesse sendo maculado por procedimentos profanos como prazos, reuniões, pagamentos ou o ajuste às exigências do freguês. Isso também se demonstrou verdadeiro em relação à literatura, no período em que lecionei. Eu achava um saco ter de categorizar textos brilhantes de modo tão redutor e estanque,  ter de ler continuamente obras pelas quais não nutria nenhum amor ou admiração particulares só porque elas faziam parte de um currículo a ser ministrado, ou então ir aos textos não por prazer, mas para elaborar avaliações com eles. Era sacal! 

Compreendo perfeitamente que haja pessoas que precisam amar suas ocupações profissionais. Apenas percebo que não sou uma delas. Gosto de identificar com clareza quando o trabalho acaba e o lazer começa. Contento-me com um emprego que banque o meu diletantismo, que me permita comprar meus livros, ir a concertos, assistir a algumas dezenas de filmes por ano. Não quero trabalhar com nenhuma dessas coisas.

O primo de uma amiga minha desistiu da profissão de tatuador porque estava farto dos desenhos horrendos que os clientes escolhiam. Um professor que tive na Uerj, certa feita, nos disse que professores e teóricos de literatura não possuem o direito de gostar dos textos. Radical, mas faz algum sentido. O gosto pessoal desses profissionais não pode ser a tônica de um ensaio ou de uma aula. Até pode influenciar a escolha do texto analisado, mas todo o resto terá de ser fundamentado e embasado com argumentos sólidos e bibliografia específica. Mesmo amando os poemas de Cruz e Souza e tendo lhe dedicado a maior parte da minha dissertação, sou obrigada a admitir que ele se restringiu bastante aos mesmos temas e recursos, que não se afastou muito de umas poucas questões.

Continuo adorando o autor porque gosto é algo que dialoga com a nossa história. A gente pode amar obras não necessariamente geniais porque se identifica com elas em algum grau. Talvez seja um problema para os críticos. Eu me sentiria meio patife em indicar, recebendo para isso, um filme ou livro com base em razões meramente subjetivas. Lembro do Rubens Ewald Filho reclamando da escalação da Kristen Stewart para determinado filme porque ela era, além de inexpressiva, "queixuda". Vê-se que nem todos compartilham dos meus pudores.

Até gosto de estudar literatura, de escrever ensaios e resenhas. Faço-o com entusiasmo surpreendente, especialmente quando não tenho prazo para tal. Ok. Sejamos realistas: quem entrega qualquer coisa sem ter prazo?

A questão é que encaro com serenidade as oito horas de burocracia diária que pagam as minhas contas e o meu lazer. Posso até voltar para a minha área, trabalhar com pesquisa ou algo similar. Só que isso não é uma urgência na minha vida. Enquanto isso, posso me ocupar com comentários e resenhas parciais e duvidosos aqui no blog. É de graça, ninguém está pedindo a minha opinião, e é por isso que é divertido.

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