quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Das amizades de contramão e ruas sem saída

Amizade não é coisa que se force. Existe ou não, simples assim. Nem sempre é recíproca, o que não é nenhuma  tragédia.

É comum as pessoas se ressentirem porque são confrades mais dedicados e interessados que a outra parte. Magoam-se diante da ausência ou falta de interesse do outro. É compreensível, mas, às vezes, inevitável. E não há lógica que dê conta. Por exemplo: é comum imaginarmos que amizades são mais facilmente travadas entre pessoas parecidas, com gostos e características similares. No entanto, isso nem sempre se dá. Ainda que nos esforcemos por desenvolver uma aproximação com alguém incrivelmente parecido conosco, o "encaixe" nem sempre acontece. Porque amizade não tem a ver com repertório, é um  sentimento impalpável que  extrapola  probabilidades.

E  então  você  se  flagra  entregue  a  largas  risadas  com  alguém  completamente  inusitado, que  num  primeiro  contato,  não  lhe  parecia interessante  de  modo  algum.  Mas  essa pessoa tem  o  dom de te  botar  nos  eixos,  de te despir de véus ilusórios, te dá uma lição de vida, que no centro de nossa zona de  conforto, parecia insuspeitada.

Muitas vezes,  troquei olhares ansiosos e partilhei silêncios constrangedores com pessoas que pareciam minhas gêmeas perdidas. O afeto podia até existir, mas não encontrava uma via de naturalidade por onde fluir. É nessa hora que a gente deve simplesmente aceitar amá-las e admirá-las de longe, sem mágoa. Culpa dificilmente se aplica em assuntos do coração.

E a gente percebe que ser amigo não é enumerar livros, discos e filmes de gosto comum (embora possa acontecer, e muito, claro). Amigo mesmo não se constrange com banalidades. Te xinga, te pede favor sem cerimônias, te liga na pior hora pra chorar as tristezas, ri das tuas incoerências sem medo de soar grosseiro ou insensível. Arreganha a porta da tua intimidade, entra, senta e toma um café.

E aquela amizade que poderia ter sido, a gente guarda no peito, como um cartão postal, ou uma foto antiga. Foi, não volta mais, e a gente admira de longe. Sem choro.

Porque a vida também é feita de ausências. Mas elas podem ser bem bonitas. 

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