quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Da incrível arte de cagar quilos

Minha vida de suburbana financeiramente limitada e com parentes psicologicamente desajustados  me serviu para algo além de repertório com o analista. Adquiri um senso de praticidade com as pessoas que me poupa o desgaste emocional por coisa pouca. É um comportamento incoerente, inclusive, com minha propensão a rompantes melancólicos diante da tragédia da existência ou da intensidade da arte. Mas em se tratando de gente, não sou de muito debate mental, não.

Concluí isso após tentar compreender por que minha mãe se incomoda tanto com o que pensam/dizem dela. Simplesmente sou incapaz de compreender porque alguém leva em tão alta conta a opinião alheia sobre si mesmo. Com o tempo, fui me tornando insensível com quem decide me difamar. Quer me chamar de louca, piranha, esnobe, brega, gorda? Vá lá! Se vai te fazer sentir melhor com suas inseguranças...

Tenho minhas neuras, é claro. Mas meu parâmetro mais inclemente  está dentro da minha cabeça. Sou eu que me imponho limites, regras, expectativas. Na verdade, creio que tenha a ver com conhecer-me bem, mas ainda mais com o fato ter alguma noção da real importância das coisas. Depois de encarar barras realmente pesadas, trabalhos infames, doenças graves na família, situações de perigo, preocupar-me com a maledicência do povo é no mínimo ridículo. A gente é educado por essa cultura que nos quer limpinhos, escovadinhos, eloquentes, populares e prontos para a disputa do mercado de trabalho e acaba aplicando essas preocupações nos âmbitos mais "irrelevantes" ou mais íntimos. Queremos ser aceitos, amados, mas, como já provocava Nelson Rodrigues, a unanimidade, se não for burra, é no mínimo ilusória. Mas o ser humano é mal resolvido demais para concluir isso de forma rápida e prática, e resolve a incapacidade de ajustar-se ou superar-se com a velha e bem conhecida tríplice calúnia-difamação-injúria.

Eu cá ando muito bem com meus poucos amigos, não sinto falta de confete ou boa reputação (até porque gente em demasia implica em too much drama, versões demais...). Não meço meus méritos pela avaliação alheia, e estou bem cônscia de onde quero chegar. Essa vida bandida não está fácil pra ninguém, por que então deveríamos desperdiçar tempo e saúde com picuinhas estúpidas? Ler A Montanha Mágica é mais gratificante, garanto.

Ando tão assoberbada com meus planos e livros, com o planeta, em bem viver o hoje e chegar até amanhã, que mal dou por mim do que andam dizendo por aí. Admira-me que alguém ainda consiga perder noites de sono com a criatividade despeitada dos outros.

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