segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres



Às vezes esqueço por que fico tanto tempo sem ler um livro da Clarice. Daí, quando finalizo a leitura de um deles, lembro-me a razão. O texto de Clarice me proporciona reflexões insólitas que rendem, que ficam ecoando por muito tempo. Sinto como se Clarice me suspendesse do banal.

Clarice e eu temos história. Já contei aqui como seus contos ajudaram a me fisgar de vez para a literatura. Só que nem tudo são flores. Houve romances da autora que podiam ser virados de ponta-cabeça que eu não saberia a diferença. Livros onde não fui capaz de penetrar. Textos que me venceram no duelo e que acabei abandonando por excesso de desorientação.

É lamentável que seus textos tenham sido retalhados e transformados em memes vazios que pouco se aproximam da complexidade que os caracteriza. Clarice foi uma autora profunda, hermética, livre e ousada, bem distante da autoajuda barata em que tentam transformá-la.

Publicado em 1969, o sexto romance da autora — Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres — é de um arrojo criativo tal que atrevo-me a defini-lo como um longo poema. Embora o romance descreva, em certa medida, o desenvolvimento da relação de um casal, é na investigação dos estados psíquicos desses personagens que ele se detém. 

Loreley é uma jovem professora primária que tem muita dificuldade de viver, de ser ela própria plenamente e sem sofrimento. É como se ela fosse incompatível com a realidade que a cerca. Suas experiências são pautadas na dor, e ela acaba se retraindo numa postura antissocial diante do mundo.  Ulisses, um professor de filosofia, interessa-se por ela e busca oferecer orientações sutis que a auxiliem a ficar mais à vontade na própria pele, que a auxiliem a experimentar a vida também através da alegria. Suas sugestões são sutis porque deve ser Lóri a agente nesse desafio. Quanto mais solitária e autônoma for a sua superação, mais efetiva ela resultará.

É preciso esclarecer que a tentativa de sinopse acima diminui bastante o texto, um risco que ele mesmo aponta: 

"Não entender" era tão vasto que ultrapassava qualquer entender — entender era sempre limitado. Mas não-entender não tinha fronteiras e levava ao infinito, ao Deus. —Pg. 43

Uma Aprendizagem ou O Livros dos Prazeres traz uma abordagem poética da alma humana, através de um experimento literário que força as barreiras do gênero e dos significados. Iniciado com uma vírgula e encerrado com dois pontos, o romance indica o caráter processual da história narrada: uma aprendizagem já iniciada e que não se encerra com o fim do romance. O texto traz, ainda, um capítulo composto por uma única palavra e o emprego acentuado de prosa poética que, em alguns momentos, dificulta interpretações meramente racionais, mas que sobressai por sua força imagética:

A batata nasce dentro da terra. 
E isso era uma alegria que ela aprendeu na hora: a batata nasce dentro da terra. E dentro da batata, se a pele é tirada, ela é mais branca do que uma maçã descascada.
A batata era a comida por excelência. Isso ela ficou sabendo, e era de uma leve aleluia. — Pg. 123

Tomava o café e pensava sem palavras: meu Deus, e dizer que é noite plena e que eu estou plena da noite grossa que escorre com perfume de amêndoas doces. E pensar que o mundo todo está grosso de tanto cheiro de amêndoas, e que eu vos amo, Deus, com um amor feito de escuridão e clarões. E pensar que os filhos do mundo crescem e se tornam homens e mulheres, e que a noite será plena e grossa para eles também, enquanto eu estarei morta, plena também. Eu vos amo, Deus, sem esperar senão a dor de Vós. A dor é o mistério. — Pg. 108

Loreley — cujo nome evoca o mito alemão da sereia que seduzia marinheiros e os conduzia à morte — está associada à desmedida, ao descontrole. Seu caráter é dionisíaco, conforme o conceito estético postulado por Nietzsche, já que suas sensações e sentimentos irrompem até o desespero, e seu processo de aprendizagem envolve rituais que orbitam o mistério, o ilógico, o selvagem.

Existe um ser que mora dentro de mim como se fosse casa dele, e é. Trata-se de um cavalo preto e lustroso que apesar de inteiramente selvagem — pois nunca morou antes em ninguém nem jamais lhe puseram rédeas nem sela — apesar de inteiramente selvagem tem por isso mesmo uma doçura primeira de quem não tem medo: come às vezes na minha mão. — Pg. 28
Lóri se sentia como se fosse um tigre perigoso com uma flecha cravada na carne, e que estivesse rondando devagar as pessoas medrosas para descobrir quem lhe tiraria a dor. — Pg. 121

Os ímpetos da protagonistas também são descritos através das imagens do fogo e da água. O fogo que consome e destrói, como a metáfora da dor existencial, e a água — impetuosa, geradora e transformadora — como alegoria dos anseios de Lóri em se superar, em renascer — não adequada, mas à vontade no universo em que vive.

Ulisses, em contrapartida, é a face apolínea do casal: centrado, controlado, capaz de mover-se bem no mundo, de experimentar a satisfação de forma comedida. Seu nome evoca o ardiloso guerreiro grego — forte, fiel e perspicaz —, que no romance, ironicamente, é quem espera que Lóri esteja emocionalmente pronta para se relacionar com ele. Sua aprendizagem está mais avançada, e a sabedoria que partilha com Lóri demonstra a possibilidade de uma postura mais positiva diante da vida:

(...) uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para a frente. Foi o apesar de que me deu uma angústia que insatisfeita foi a criadora de minha própria vida. — Pg. 26

Loreley inicia uma jornada de autoconsciência e de auto desafio a fim de superar as próprias dificuldades. O entendimento sobre si mesma, processo doloroso e angustiante, tem início no contato com o outro, na percepção que o outro (Ulisses) tem dela, para só então retornar e partir da própria perspectiva.  Clarice enfatiza também a relação do indivíduo com o ambiente, o processo de familiarização e conhecimento do mundo através de pequenos insights e epifanias indizíveis, de experiências que se concretizam num âmbito pré-verbal, no "pensar sem palavras".

Nota-se, em Uma Aprendizagem, o emprego de elementos recorrentes na obra clariceana, como o misticismo, o uso do vocabulário litúrgico e a presença da epifania decorrente do ato de comer (comunhão). Uma questão curiosa reside no fato de a autora transitar entre a sugestão de um milagre da existência e uma concepção espinozista de Deus, isto é, da noção de um deus-natureza, que é tudo. Se a obra não opta por uma dessas vertentes, isso não chega a gerar inconsistência, dado o caráter processual do aprendizado, já citado anteriormente.

Pode-se dizer que Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres  é um dos momentos mais maduros e conscientes da carreira de Clarice, em que uma poética ontológica se desenvolve através de um estilo narrativo livre e autêntico, que busca tangenciar com a forma a questão da essência e da liberdade individual.

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