Publicado pela primeira vez em 2000, Morreste-me é o livro de estreia do português José Luís Peixoto. Sinto um pouco de pena por resenhar esse livro, por reduzi-lo a características, por categorizá-lo. É que Morreste-me é uma carta de despedida, muito real e angustiada.
Dedicado ao pai falecido do autor, o texto é uma carta de amor e de despedida, escrita em linguagem poética. O texto passa pela revolta, pela dor, pelo inconformismo, pelo luto, pelos momentos cotidianos onde a saudade impõe seu peso e sufoca.
De três em três semanas, cinco manhãs seguidas viam-te ir ao tratamento; eu, teu filho, via-te ir ao tratamento e doía-me a vida, doía-me a vida que em ti se negava, a vida a gastar-te, ainda que a amasses, a vida a derrubar-te, ainda que a amasses. — Pg. 12
O narrador interpela, todo tempo, esse pai cuja ausência parece só reforçar sua necessidade e presença. Porque o amor que os unia deixou-o impregnado dos momentos, dos compartilhamentos, das trocas, dos ensinamentos.
Pai. Deixaste-te ficar em tudo. Sobrepostos na mágoa indiferente deste mundo que finge continuar, os teus movimentos, o eclipse dos teus gestos. E tudo isto é agora pouco para te conter. Agora, és o rio e as margens e a nascente; és o dia, e a tarde dentro do dia, e o sol dentro da tarde; és o mundo todo por seres a sua pele. — Pg.19Parto de ti, viajo nos teus caminhos, corro e percorro-me e desencontro-me no enredo de ti, nasço, morro, parto de ti, viajo no escuro que deixaste e chego, chego finalmente a ti. —Pg. 25
O título deixa entrever o quão pessoal e intrínseca é essa falta, como se ela dissesse respeito acima de tudo a esse narrador, que sente morrer uma parte enorme de si mesmo.
Uma das dificuldades do narrador é aceitar o mundo sem a presença do pai, viver nesse mundo e lidar com seus elementos, que continuam a existir e exercer suas funções a despeito da ausência.
Há o sol que partilhámos mil vezes e que agora não te aquece, que agora não me aquece. Pai. Passo por tudo e tudo me deixa e passa por mim. Caio. Avanço. Regresso. — Pg. 29
Ao final, após muita indignação e recusa, o narrador reconhece que o pai
vive nele, e sempre viverá, e esse legado sentimental lhe dá consolo e força para
prosseguir. Morreste-me é um livrinho de 62 páginas bastante tristes, mas a tristeza também tem suas delicadezas. Morreste-me é um livro para sentir, para ler em voz alta e participar, ainda que por um momento breve, da beleza desse amor.
* Esse livro foi cortesia da editora Dublinense.

Nenhum comentário:
Postar um comentário