quarta-feira, 9 de outubro de 2013

A escolha de Frances



No seu mais aclamado livro, Em busca de sentido, o psicanalista Viktor Frankl comenta como a identificação do sentido da vida pode nos livrar do vazio existencial e modular a nossa postura diante dos fatos. Frances Ha, último filme de Noah Baumbach, serve como ilustração dessa teoria.

À primeira vista, a película de 86 minutos parece um episódio de Girls estendido para a longa metragem: tal qual a aspirante a escritora, Hannah, a jovem dançarina, Frances, mora em Nova Iorque e não consegue sobressair na companhia onde trabalha.  Vivendo com a promessa nunca concretizada de ser promovida a bailarina titular, ela acaba tendo de lidar com a renda escassa, empregos incompatíveis com a sua formação, baixa autoestima, solidão. O filme conta, ainda, com a participação de Adam Driver, o “rolo” amoroso de Hannah no seriado, e com uma trilha sonora caprichada: Bach, Bowie, Paul McCartney, The Rolling Stones, George Delerue (que fez várias trilhas de filmes da nouvelle vague). 
 
Há, no entanto, diferenças importantes em relação ao seriado: não há sexo, nudez ou grandes entraves amorosos no filme. Aqui, as urgências são de ordem espiritual. Enquanto vai perdendo a casa, o emprego, a melhor amiga, Frances se esforça em manter o bom humor, em continuar procurando a graça das coisas, em prosseguir do jeito que dá. Greta Gerwig, atriz que dá vida à protagonista, confere outra dimensão a esse ofício, tamanha a competência de sua interpretação. Frances convence como qualquer moça que pudéssemos conhecer: sem grandes destaques, meio estabanada, com as olheiras normais de quem trabalha, espontânea, natural na medida. Maiores artifícios descaracterizariam a proposta do filme. A vida pulsante na "grande maçã", as belas músicas, os dilemas de uma jovem sensível e desengonçada e o fato de Greta ser coautora do roteiro evocam o charme dos filmes de Woody Allen. 
 
Filmado em preto e branco, o longa consegue escapar ao melodrama, mostrando-se ao mesmo tempo lírico e contemporâneo. A opção pela falta de cor parece mesmo desmentir qualquer ambição extraordinária da trama, sugerindo que o drama de Frances é corriqueiro, igual ao de muitos de nós. Inserida num universo de jovens conectados, ansiosos pelo reconhecimento profissional, e que simulam ou exageram o próprio sucesso, Frances tenta não cair em desespero e se agarra ao otimismo. Sua postura lúdica diante vida imprime uma beleza cativante ao filme. 
 
Sentindo-se como a única de seu círculo a afundar num oceano de derrotas, a dançarina vai percebendo que, antes de afirmar-se publicamente, é a fidelidade a si mesma que será capaz de apaziguá-la. É porque se descobre ciente daquilo que gosta e de seus objetivos que Frances é capaz de lidar firme e positivamente com o sofrimento e com suas limitações. 
 
Com alguns momentos divertidos e situações familiares, Frances Ha oferece uma falsa leveza. A reflexão que o filme propõe diz respeito a uma realidade tangente, muito próxima a maioria de nós: mesmo num mundo obcecado com vencedores, há lugar para os "meros mortais", os falhos, os imperfeitos. Mais do que sofrer uma imposição do destino, render-se ao desalento é fazer uma escolha.


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