No seu mais aclamado livro, Em
busca de sentido, o psicanalista Viktor Frankl comenta como a identificação
do sentido da vida pode nos livrar do vazio existencial e modular a nossa
postura diante dos fatos. Frances Ha, último filme de Noah
Baumbach, serve como ilustração dessa teoria.
Há, no entanto, diferenças
importantes em relação ao seriado: não há sexo, nudez ou grandes entraves
amorosos no filme. Aqui, as urgências são de ordem espiritual. Enquanto vai
perdendo a casa, o emprego, a melhor amiga, Frances se esforça em manter o bom
humor, em continuar procurando a graça das coisas, em prosseguir do jeito que
dá. Greta Gerwig, atriz que dá vida à protagonista, confere outra dimensão a
esse ofício, tamanha a competência de sua interpretação. Frances convence como
qualquer moça que pudéssemos conhecer: sem grandes destaques, meio estabanada,
com as olheiras normais de quem trabalha, espontânea, natural na medida.
Maiores artifícios descaracterizariam a proposta do filme. A vida pulsante na
"grande maçã", as belas músicas, os dilemas de uma jovem sensível e
desengonçada e o fato de Greta ser coautora do roteiro evocam o charme dos
filmes de Woody Allen.
Filmado em preto e branco, o
longa consegue escapar ao melodrama, mostrando-se ao mesmo tempo lírico e
contemporâneo. A opção pela falta de cor parece mesmo desmentir qualquer
ambição extraordinária da trama, sugerindo que o drama de Frances é
corriqueiro, igual ao de muitos de nós. Inserida num universo de jovens
conectados, ansiosos pelo reconhecimento profissional, e que simulam ou
exageram o próprio sucesso, Frances tenta não cair em desespero e se agarra ao
otimismo. Sua postura lúdica diante vida imprime uma beleza cativante ao filme.
Sentindo-se como a única de seu
círculo a afundar num oceano de derrotas, a dançarina vai percebendo que, antes
de afirmar-se publicamente, é a fidelidade a si mesma que será capaz de
apaziguá-la. É porque se descobre ciente daquilo que gosta e de seus objetivos
que Frances é capaz de lidar firme e positivamente com o sofrimento e com suas
limitações.
Com alguns momentos divertidos e
situações familiares, Frances Ha oferece uma falsa leveza. A reflexão
que o filme propõe diz respeito a uma realidade tangente, muito próxima a
maioria de nós: mesmo num mundo obcecado com vencedores, há lugar para os
"meros mortais", os falhos, os imperfeitos. Mais do que sofrer uma
imposição do destino, render-se ao desalento é fazer uma escolha.

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