segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

O romances policiais de Flávio Carneiro



Conheci o Flávio na Uerj, quando cursava a graduação em Letras. Reencontrei-o, anos depois, no mestrado, quando cursei a disciplina de romance policial e fantástico que ele ministrava. Ao longo da minha estadia na universidade, fui adquirindo seus livros — o romance fantástico A Confissão (resenha aqui) e outros três de teoria literária. Recentemente, soube do lançamento de seu último romance policial — O Livro Roubado (2014) — e decidi comprar não só esse, mas também o anterior, lançado em 2002, intitulado O Campeonato. Eu sabia muito por alto que O Campeonato tinha uma espécie de homenagem à literatura, o que já me deixava animada. Encorajava-me, ainda, o fato de eu ter apreciado bastante A Confissão.

Tanto O Campeonato quanto O Livro Roubado se passam no Rio de Janeiro. Neles a cidade é, mais que cenário, uma homenageada. Sua geografia exuberante, seus bares e suas livrarias são percorridos, admirados e desfrutados pelos protagonistas. No entanto, a grande estrela dos dois romances é a própria literatura. É ela que será laureada, evocada e comentada a todo o momento, tanto nas investigações empreendidas quanto nas intrigas arquitetadas. 

Em O Campeonato, o sequestro de um adolescente está relacionado a um grupo secreto que promove uma bizarra competição, inspirada num conto do Rubem Fonseca. N'O Livro Roubado, uma edição de Histoires Extraordinaires, de Edgar Alan Poe, traduzida e organizada por Charles Baudelaire, é roubada da refinada biblioteca de um membro de um clube secreto de bibliófilos que se identificam com nomes de alquimistas famosos. Em ambos os romances, autores e obras literárias são citados e referenciados, de forma direta ou velada. Se no primeiro romance, a homenagem se concentra no romance policial clássico, no mais recente o louvor parece direcionado a autores de uma vertente mais notadamente erudita: Jorge Luis Borges e Umberto Eco.

André e Gordo, os protagonistas que tentam bancar os detetives, são leitores vorazes de romances policiais. André, que no primeiro romance vivia sendo mandado embora dos empregos por ler em serviço, decide fazer um curso de detetive particular por correspondência e anuncia seus serviços nos classificados usando uma citação de Poe. Gordo — um personagem tão carismático e divertido que eu gostaria de ser sua amiga na vida real — trabalhava numa livraria no primeiro romance, mas no segundo é dono de um sebo. Ambos passam a investigação tentando imaginar o que os detetives de seus adorados romances fariam, e toda hipótese levantada nas investigações é analisada com base em suas leituras de textos policiais.

Tal conhecimento, não entanto, não lhes garante sucesso. Uma das características desses dois romances é a desconstrução dos elementos clássicos do gênero. Por isso, Gordo, o suposto ajudante, é mais esperto que André, e os detetives ocupam, também, em certa medida, o lugar das vítimas. Mais transgressor é o final aberto de O Campeonato, que deixa o leitor à deriva.

Pode-se dizer que os romances, além de entreter, instruem sobre literatura. Mas toda essa informação não vem revestida de academicismos. Ao contrário, o leitor é convidado a participar e aprender como se estivesse batendo papo no bar entre amigos. Nesse sentido, a linguagem adotada tem grande contribuição: é fluida, leve, sem excessos. Os diálogos são verossímeis, inclusive no que toca à idade dos personagens, que no segundo romance estão oito anos mais velhos.

Além de envolventes e divertidos, os romances policiais de Flávio Carneiro prestam uma bela homenagem. Presenteiam os amantes de literatura e do gênero policial e provocam o leitor genérico, incitando-o a se aventurar nesse universo.

Fazes-me falta



Há tempos ouço elogios à obra de Inês Pedrosa e vinha ensaiando um encontro com essa escritora portuguesa. Aproveitei um amigo-secreto recente entre leitores amigos para incluir o nome dela na minha lista de desejos. Se eu guardasse qualquer expectativa em relação ao que a estação natalina pudesse me proporcionar, poderia dar-me já por (muito mais que) satisfeita.

Publicado pela primeira vez em 2002, Fazes-me falta tem um enredo mínimo, o que dificulta-me a tarefa de tecer comentários mais detidos. É interessante manter-lhes a chance de ser arrebatados a cada página. Sei que soo exagerada, mas esse foi o efeito do livro em mim. Ao final da leitura, sentia-me exausta, enxovalhada pelo texto. Inclusive, recomendo que o leiam aos poucos, com vagar, porque não só o texto é bastante refinado em muitos momentos, como o tema é um tanto pesado.

O romance intercala monólogos de dois personagens, um homem e uma mulher, que tiveram uma relação amorosa pregressa e que não mais podem conviver. Eles falam um para o outro e suas mensagens compõem uma espécie de diálogo espiritual. Ela faleceu de forma abrupta e precoce e fala de um espaço-tempo post mortem, logo, ele não pode ouvi-la.

O título do romance pode dar a falsa impressão de que se trata de uma história açucarada e clichê, mas não é o caso. Em primeiro lugar, a relação entre os personagens escapa ao trivial. Eles tiveram um relacionamento amoroso, mas nos últimos anos eram apenas amigos que, apesar de muito diferentes, amavam-se muito. Esse amor que, no entanto, estava fora do âmbito carnal, é de uma complexidade difícil de descrever sem entregar o melhor do romance.



Os protagonistas discorrem sobre solidão, perda, saudades, mágoa. Consolam-se com as memórias e lamentam o que não foi possível, devido à distância que já se interpunha entre eles antes da morte abrupta da mulher. Suas falas são comoventes, mas também cativam, porque Pedrosa logrou em construir personagens ricos, verossímeis em seus defeitos, fraquezas, orgulhos, ingenuidades. Cada qual traz uma história repleta de peculiaridades que contrastam, se chocam e se somam quando em contato.

Descansa em paz. Fizeste uma morta bonita - mais bonita e serena do que alguma vez foste, cachopa. Compuseram-te a imagem. Disso vivem as figuras públicas, mesmo na morte. Viva a imagem. Talvez fosse melhor não te ter visto, não ter beijado a tua testa. Agarrei-me a essa derradeira nota do teu calor. Ficaste-me com um travo a incenso e flores mortas. O cheiro do amor vedado que abandonáramos pela paisagem da nossa pré-história. Chamo-lhe amor para simplificar. Há palavras assim, que se dizem como calmantes. Palavras usadas em série para nos impedir de pensar. O que existia, existe, entre nós, é uma ciência do desaparecimento. Comecei a desaparecer no dia em que os meus olhos se afundaram nos teus. Agora que teus olhos se fecharam sei que não voltarás a devolver-me os meus —Pág. 11.



A abordagem dos sentimentos urdida por Inês Pedrosa transcende, almeja o sublime.  E tudo isso veiculado por uma prosa impecável, deliciosa, que nos apequena e agiganta a um só tempo. Fazes-me falta é um romance sensível, pungente, lírico, que me surpreendeu e aumentou belamente a minha lista de romances favoritos escritos por mulheres.


A Redoma de Vidro



Mais de dez anos se passaram até que eu me reencontrasse com a prosa de Sylvia Plath. O impacto que o único romance da autora estadunidense me causou resistiu mais na minha memória que a lembrança mesmo do texto. Por isso, decidi que era hora de retomá-lo. Fi-lo no início do ano, não sem receio de que ele perdesse a força com essa releitura mais madura. Sou grande admiradora de releituras, vendo nelas a chance de perceber aspectos antes ignorados, mas não é incomum perceber que certos textos fazem mais sentido quando somos jovens.

Aqui, a narrativa em primeira pessoa de uma estudante universitária às voltas com uma grave crise existencial, assombrava-me com a possibilidade de um texto excessivo em melodrama. Felizmente, isso não aconteceu. Reeditado recentemente pelo selo Biblioteca Azul, o texto de Plath nos é apresentado com a tradução competente e cuidadosa de Chico Mattoso, que logrou em resguardar-lhe as melhores características.

Publicado originalmente em 1963, A Redoma de Vidro tem cunho fortemente autobiográfico. O livro é narrado por Esther Greenwood, uma estudante aplicada e competente, que inicia um quadro de depressão durante um estágio numa revista feminina, em Nova Iorque. Esther, que já havia se desiludido com o estágio, sucumbe ao ter a inscrição recusada num importante curso de escrita criativa.  Plath foi uma das mais célebres poetas da vertente confessional iniciada por Robert Lowell na década de 1950, e isso é notável em seu romance, não só pelo aproveitamento das próprias experiências, mas também pelo lirismo empregado na narrativa. Esther nos apresenta o seu vazio, sua falta de energia e suas frustrações de forma gradual, através de uma prosa seca, direta, mas ao mesmo tempo poética, que ecoa o estilo de The Collossus e Ariel, livros de poemas da autora. É preciso o uso que a autora faz das pausas e da concisão sintagmática com o objetivo de conferir aos fatos uma gravidade visceral e desconcertante e de indiciar a paralisia psíquica da personagem:

Engatinhei de volta à cama e cobri minha cabeça com os lençóis. Como isso não afastou a luz, enterrei o rosto sob a escuridão do travesseiro, fingindo que ainda era noite. Eu não via motivo para me levantar.
Eu não ansiava por nada. — p. 133.

Esther narra suas experiências com objetividade brutal, como se as olhasse de fora, aumentando a angústia e a vulnerabilidade do leitor, que nunca é preparado para o que vem adiante. Essa secura narrativa é pontuada por momentos poéticos, cuja força se ancora na beleza imagética:

Resolvi nadar até estar cansada demais para voltar. Enquanto avançava, eu sentia o coração batendo como um motor surdo nos meus ouvidos.
Eu sou eu sou eu sou. — p. 177.

— Vamos continuar de onde paramos, Esther — ela havia dito, com seu sorriso doce de mártir. — Vamos fingir que tudo não passou de um sonho ruim.
Um sonho ruim.
Para a pessoa dentro da redoma de vidro, vazia e imóvel como um bebê morto, o mundo inteiro é um sonho ruim.
Um sonho ruim.
Eu lembrava de tudo.
(...)
Talvez o esquecimento, como uma nevasca suave, pudesse entorpecer e esconder aquilo tudo.
Mas aquilo tudo era parte de mim. Era a minha paisagem. — 266

O suicídio se apresenta à personagem como uma espécie de libertação, nunca associado ao desespero. Os momentos em que Esther pensa nele ou dele se aproxima são calmos, quase delicados, como se ela vislumbrasse nele uma espécie de refrigério para uma existência cansativa e decepcionante.

Plath maneja com maestria a abordagem da depressão, a percepção repentina da falta de controle sobre os próprios sentimentos. É sabido que a autora sofreu com a doença e se submeteu a tratamentos similares aos experimentados pela personagem, além de ter tirado a própria vida no mesmo ano da publicação do romance. No entanto, nunca saberemos o que no romance é  autobiográfico ou ficcional. A questão é que Plath consegue transmitir, em A redoma, a desorientação do indivíduo diante de uma doença que lhe suga progressivamente as energias.

O escrutínio de nossa fragilidade, com uma prosa a um só tempo madura, poética e inclemente faz de A Redoma de Vidro um romance verdadeiro, ainda que pesado, e revela não só o olhar sensível de Plath, mas também o seu domínio pleno do ofício na transposição de temas tão humanos em ficção.

A Desumanização



Passava pela minha vida feita de profunda solidão e tristeza. — Pg. 66

Publicado em 2013, A Desumanização é o sexto romance do autor português Valter Hugo Mãe. Ambientado na Islândia, o romance é centrado na jovem Halldora, que narra como ela e sua família lidam (ou tentam lidar) com a vida após a morte prematura de Sigridur, sua irmã gêmea. Enquanto Halldora tenta superar essa perda que, para ela, é a perda de uma parte de si própria, a família e as pessoas próximas tratam-na como se ela estivesse parcialmente morta, em processo de apagamento, como se  fosse um retalho equivocado dessa partida.

A mãe de Halldora, consumida de revolta e culpa, projeta sua frustração na filha viva, agredindo-a física e verbalmente, empenhando-se em fazer com que a menina não viva plenamente, com que se desumanize de forma gradativa, num tributo desesperado à memória da adolescente morta.  Incapazes de compreender e superar essa ausência, os membros da família perdem a capacidade de se comunicar e de se reestruturar. Por isso, o pai se isola no mar, a mãe se mutila e Halldora se anula.

As palavras são objetos magros incapazes de conter o mundo. Usamo-las por pura ilusão. Deixámo-nos iludir assim para não perecermos de imediato conscientes da impossibilidade de comunicar e, por isso, a impossibilidade da beleza. — Pg. 27

 A comunicação entre eles se dá apenas de forma simbólica, através de atos ora violentos, ora generosos, mas predominantemente desorientados. A partir dessa ruptura familiar, a menina de doze anos se vê enredada num relacionamento tão absurdo quanto ilógico, cujos desdobramentos, no entanto, a ajudarão a amadurecer e a compreender melhor a si mesma e às pessoas próximas.

Um dos aspectos mais belos do romance é a relação que Halldora tem com seu pai, e que ambos estabelecem com a palavra. Para consolar a menina sozinha e negligenciada, o pai lhe recita os poemas que escreve para entender os próprios sentimentos. Deslumbrada com tais poemas, Halldora toma conhecimento de possibilidades antes insuspeitadas, começa a sonhar, a entrever a possibilidade de reinvenção da própria existência.

Os livros eram ladrões. Roubavam-nos do que nos acontecia. Mas também eram generosos. Ofereciam-nos o que não nos acontecia. — Pg. 40
Andávamos como pessoas com luzes acesas dentro. As palavras como lâmpadas na boca. Iluminando tudo no interior da cabeça. Como o cristal natural do Einar, que o deixava mágico. As palavras deixavam-nos mágicos. Eram os livros que traziam feitiço e punham tudo a ser outra coisa. A boca elétrica, dizia alto. Eu e o Einar escutávamos estudando o mundo. — Pg. 125

A solidão e a imensidão da ausência tornam necessária a recriação da linguagem, pois esta não dá conta do absurdo doloroso que consome os personagens. É preciso restaurar o caráter inaugural da linguagem, dar-lhe poderes redentores, fugir às limitações do prosaico e se entregar às múltiplas possibilidades do poema, à liberdade do poema, que conferirá esperança, que os dignificará. Renascer pela palavra, fazer-se poema, fazer-se indivíduo possível.

O pequeno tanque branco, pensei, podia ser uma página. Os peixes debatendo-se podiam ser um poema. Chamei o meu pai. Disse-lhe que os poemas deviam ser assim, como caixas onde estivesse tudo contido e onde, por definição, pudéssemos entrar também. Caixas grandes, se fosse necessário. Adequadas ao tamanho do que se quisesse dizer. Do que se quisesse guardar. E os peixes como versos que podemos tocar. Pai. Que podemos tocar. Esses versos convence-me, os outros, não. — Pg. 32

Eu perguntei: posso chamar a vida de poema. E ele respondeu: podes chamar a vida de poema. Ou podes chamar de normalidade. A vida é a normalidade. O poema é normal.
Onde há palavra, há deus. Onde nasce a palavra, nasce deus. Todos os outros lugares são ermos sem dignidade. — Pg. 45
A arte como redentora e reveladora de potencialidades ressurgirá, ainda, associada a outras incongruências do espírito. Embora reverencie o poder criativo do homem (ou talvez por isso mesmo), o romance quer apontar, também, a coexistência do sublime e do terrível na psique humana, o potencial a um só tempo destrutivo e criativo de um espírito em crise. Por esse motivo,  menos que um romance que busca apaziguar, A Desumanização quer aproximar esses dois polos, estabelecer-lhes uma equivalência que evidencie o mais profundo da natureza humana. Se a beira da loucura serve de antessala à aniquilação, ela também pode fazer surgir a transcendência.

Embora o autor comente, no posfácio, a grande admiração que tem pela cultura da Islândia, o que poderia, por si só, servir de justificativa para a escolha da ambientação, as paisagens inóspitas desse país se adequam muito bem à atmosfera retratada no romance. As montanhas, geleiras e fiordes são, de certa maneira, um espelhamento das angústias dos personagens: as montanhas poderiam servir de alegorias para a magnitude da dor e para a inclemência dos fatos; as geleiras, para a esterilização das ligações existentes; os fiordes, para a insistência humana de sobreviver em meio às circunstâncias terríveis.  A solidão e o isolamento exacerbam a consciência de si mesmo, obrigando os personagens à autoanálise, ao enfrentamento das próprias fraquezas.

Esse drama denso e extremamente simbólico é narrado com uma linguagem que é, apesar de simples, muito poética — repleta de imagens, metáforas e alegorias. É um romance que replica o paradoxo do tema na forma, na medida em que se utiliza da beleza linguística para investigar o sofrimento mais intenso.

Se a minha irmã morta engravidasse, seria como a terra estar grávida. Uma ilha grávida. A Islândia inteira. Para construir uma criança ou um monstro, uma pedra ou um poço de novo fogo. A ilha grávida poderia ser normal. Era um poema muito intenso. — Pg. 63

Com originalidade e força, Valter Hugo Mãe demonstra, nesse seu mais recente livro, que a dor mais aguda e debilitante é também um caminho possível para o entendimento de si e do mundo.

Trinta e Oito e Meio



Publicado no início de 2015 pela editora Língua Geral, Trinta e Oito e Meio é o primeiro livro da atriz e diretora de cinema Maria Ribeiro. Com um projeto gráfico caprichado e belíssimas ilustrações de Rita Wainer, o livro reúne algumas crônicas que autora publicou na revista TPM, além de outras inéditas.

As crônicas de Maria versam sobre amor, família, amigos, trabalho, laços afetivos, comportamento. E aqui "versar" pode se referir também ao lirismo e à originalidade com que a autora maneja seus elementos. Maria se debruça sobre os fatos  com interesse e espanto, dando atenção às minúcias, às entrelinhas. Investigando o significado das coisas, das reações e das relações interpessoais ao seu redor.

Esse olhar curioso e fascinado é veiculado por um estilo a um só tempo poético, original e bem humorado. Maria, a exemplo de grandes cronistas, como Rubem Braga, vê a beleza e a grandiosidade das pequenas coisas:


Eu entendi o futebol, pai. Ele é bonito porque é lúdico e primitivo, e nos dá a todos um sentido instantâneo pra existência, um prazer que mistura fazer parte e descansar de que se é. Porque perdendo ou ganhando não há solidão, e saber que alguém sente o mesmo que você é quase tudo na vida. Quem tem time tem tudo. — Pg. 158



A autora elabora frases de efeito inusitadas, além de exercer uma autocrítica divertida e sincera:

Porque se a tragédia da vida é o 'take' único, os filhos são uma verdadeira máquina do tempo — sem o custo do efeito especial. — Pg. 35

 A supraeu frequentaria mostras, reveria todos os Bergmans e, o que é melhor, compreenderia todos os Bergmans, e daria aquelas risadas pra si de quem faz parte do restrito mundo da inteligência. — Pg. 109

A ironia autodirigida associada ao desvelo de suas inseguranças, dúvidas e incertezas nos aproxima da autora, cria empatia porque permite que nos reconheçamos naqueles dilemas, permite que iniciemos uma reflexão acerca de nós mesmos a partir das que ela empreende.

Maria Ribeiro retorna, quase obsessivamente às memórias: é uma saudosista melancólica que, no entanto, não repudia o presente. As lembranças são resgatadas a todo tempo porque a fortalecem e suavizam, porque permitem que ela possa aceitar as próprias fraquezas, reconciliar-se com as próprias falhas, preencher de significado as próprias lacunas e conferir sentido (mas também leveza) às atividades cotidianas.

As pessoas são de extrema importância na jornada de Maria e várias de suas crônicas se constituem de agradecimentos, de reconhecimentos, de admiração. A autora lhes declara seu amor e celebra  as dádivas decorrentes desses laços.

Porque você, Carol... você é uma casa com estrutura de ferro e passarinho nas árvores. Um lugar do qual eu nunca quero sair, onde eu moro feliz, e de onde humildemente te ofereço meu ombro e minha sincera amizade. — Pg. 55

Trinta e Oito e Meio é, ainda, um registro de formação, já que a cronista reflete sobre seu amadurecimento, sobre seu aprendizado, examina seus papéis: filha, mãe, amiga. Todos lhe cabem e todos estão em processo. E se complementam, no incessante exercício de tentar viver bem.

Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres



Às vezes esqueço por que fico tanto tempo sem ler um livro da Clarice. Daí, quando finalizo a leitura de um deles, lembro-me a razão. O texto de Clarice me proporciona reflexões insólitas que rendem, que ficam ecoando por muito tempo. Sinto como se Clarice me suspendesse do banal.

Clarice e eu temos história. Já contei aqui como seus contos ajudaram a me fisgar de vez para a literatura. Só que nem tudo são flores. Houve romances da autora que podiam ser virados de ponta-cabeça que eu não saberia a diferença. Livros onde não fui capaz de penetrar. Textos que me venceram no duelo e que acabei abandonando por excesso de desorientação.

É lamentável que seus textos tenham sido retalhados e transformados em memes vazios que pouco se aproximam da complexidade que os caracteriza. Clarice foi uma autora profunda, hermética, livre e ousada, bem distante da autoajuda barata em que tentam transformá-la.

Publicado em 1969, o sexto romance da autora — Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres — é de um arrojo criativo tal que atrevo-me a defini-lo como um longo poema. Embora o romance descreva, em certa medida, o desenvolvimento da relação de um casal, é na investigação dos estados psíquicos desses personagens que ele se detém. 

Loreley é uma jovem professora primária que tem muita dificuldade de viver, de ser ela própria plenamente e sem sofrimento. É como se ela fosse incompatível com a realidade que a cerca. Suas experiências são pautadas na dor, e ela acaba se retraindo numa postura antissocial diante do mundo.  Ulisses, um professor de filosofia, interessa-se por ela e busca oferecer orientações sutis que a auxiliem a ficar mais à vontade na própria pele, que a auxiliem a experimentar a vida também através da alegria. Suas sugestões são sutis porque deve ser Lóri a agente nesse desafio. Quanto mais solitária e autônoma for a sua superação, mais efetiva ela resultará.

É preciso esclarecer que a tentativa de sinopse acima diminui bastante o texto, um risco que ele mesmo aponta: 

"Não entender" era tão vasto que ultrapassava qualquer entender — entender era sempre limitado. Mas não-entender não tinha fronteiras e levava ao infinito, ao Deus. —Pg. 43

Uma Aprendizagem ou O Livros dos Prazeres traz uma abordagem poética da alma humana, através de um experimento literário que força as barreiras do gênero e dos significados. Iniciado com uma vírgula e encerrado com dois pontos, o romance indica o caráter processual da história narrada: uma aprendizagem já iniciada e que não se encerra com o fim do romance. O texto traz, ainda, um capítulo composto por uma única palavra e o emprego acentuado de prosa poética que, em alguns momentos, dificulta interpretações meramente racionais, mas que sobressai por sua força imagética:

A batata nasce dentro da terra. 
E isso era uma alegria que ela aprendeu na hora: a batata nasce dentro da terra. E dentro da batata, se a pele é tirada, ela é mais branca do que uma maçã descascada.
A batata era a comida por excelência. Isso ela ficou sabendo, e era de uma leve aleluia. — Pg. 123

Tomava o café e pensava sem palavras: meu Deus, e dizer que é noite plena e que eu estou plena da noite grossa que escorre com perfume de amêndoas doces. E pensar que o mundo todo está grosso de tanto cheiro de amêndoas, e que eu vos amo, Deus, com um amor feito de escuridão e clarões. E pensar que os filhos do mundo crescem e se tornam homens e mulheres, e que a noite será plena e grossa para eles também, enquanto eu estarei morta, plena também. Eu vos amo, Deus, sem esperar senão a dor de Vós. A dor é o mistério. — Pg. 108

Loreley — cujo nome evoca o mito alemão da sereia que seduzia marinheiros e os conduzia à morte — está associada à desmedida, ao descontrole. Seu caráter é dionisíaco, conforme o conceito estético postulado por Nietzsche, já que suas sensações e sentimentos irrompem até o desespero, e seu processo de aprendizagem envolve rituais que orbitam o mistério, o ilógico, o selvagem.

Existe um ser que mora dentro de mim como se fosse casa dele, e é. Trata-se de um cavalo preto e lustroso que apesar de inteiramente selvagem — pois nunca morou antes em ninguém nem jamais lhe puseram rédeas nem sela — apesar de inteiramente selvagem tem por isso mesmo uma doçura primeira de quem não tem medo: come às vezes na minha mão. — Pg. 28
Lóri se sentia como se fosse um tigre perigoso com uma flecha cravada na carne, e que estivesse rondando devagar as pessoas medrosas para descobrir quem lhe tiraria a dor. — Pg. 121

Os ímpetos da protagonistas também são descritos através das imagens do fogo e da água. O fogo que consome e destrói, como a metáfora da dor existencial, e a água — impetuosa, geradora e transformadora — como alegoria dos anseios de Lóri em se superar, em renascer — não adequada, mas à vontade no universo em que vive.

Ulisses, em contrapartida, é a face apolínea do casal: centrado, controlado, capaz de mover-se bem no mundo, de experimentar a satisfação de forma comedida. Seu nome evoca o ardiloso guerreiro grego — forte, fiel e perspicaz —, que no romance, ironicamente, é quem espera que Lóri esteja emocionalmente pronta para se relacionar com ele. Sua aprendizagem está mais avançada, e a sabedoria que partilha com Lóri demonstra a possibilidade de uma postura mais positiva diante da vida:

(...) uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para a frente. Foi o apesar de que me deu uma angústia que insatisfeita foi a criadora de minha própria vida. — Pg. 26

Loreley inicia uma jornada de autoconsciência e de auto desafio a fim de superar as próprias dificuldades. O entendimento sobre si mesma, processo doloroso e angustiante, tem início no contato com o outro, na percepção que o outro (Ulisses) tem dela, para só então retornar e partir da própria perspectiva.  Clarice enfatiza também a relação do indivíduo com o ambiente, o processo de familiarização e conhecimento do mundo através de pequenos insights e epifanias indizíveis, de experiências que se concretizam num âmbito pré-verbal, no "pensar sem palavras".

Nota-se, em Uma Aprendizagem, o emprego de elementos recorrentes na obra clariceana, como o misticismo, o uso do vocabulário litúrgico e a presença da epifania decorrente do ato de comer (comunhão). Uma questão curiosa reside no fato de a autora transitar entre a sugestão de um milagre da existência e uma concepção espinozista de Deus, isto é, da noção de um deus-natureza, que é tudo. Se a obra não opta por uma dessas vertentes, isso não chega a gerar inconsistência, dado o caráter processual do aprendizado, já citado anteriormente.

Pode-se dizer que Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres  é um dos momentos mais maduros e conscientes da carreira de Clarice, em que uma poética ontológica se desenvolve através de um estilo narrativo livre e autêntico, que busca tangenciar com a forma a questão da essência e da liberdade individual.

Frankenstein, ou o Prometeu Moderno



Publicado em 1818, Frankenstein, ou o Prometeu Moderno, foi o primeiro romance da escritora inglesa Mary Shelley, e sua obra-prima. Escrito quando a autora contava somente dezenove anos, o romance é um verdadeiro trabalho de gênio e profundidade.

Filha do filósofo anarquista William Godwin e da escritora feminista Mary Wollstonecraft, Mary teve contato desde muito cedo com intelectuais de destaque, que frequentavam a sua casa. Posteriormente, ela se casaria com o poeta romântico Percy Shelley, cujo trabalho e personalidade encontrariam ressonância em seu livro mais notável.

A história de Frankenstein surgiu a partir de uma brincadeira na casa de Lord Byron, que propôs aos presentes um concurso de histórias de terror. Embora, a princípio, Mary não tenha conseguido apresentar a sua história, dias depois, ela chegou ao esboço do que seria o seu primeiro romance. Narrado em sua maior parte em formato epistolar, Frankenstein narra a história do cientista de mesmo nome que decidiu criar um ser vivo a partir de membros de cadáveres.

A história tem início quando o doutor Victor Frankenstein é resgatado, à deriva e com a saúde debilitada, por outro cientista, Walton, no polo Norte. As cartas que compõem o romance são de Walton para sua irmã e é através delas que temos acesso à história de Frankenstein. Percebendo as largas ambições científicas de Walton, Frankenstein decide lhe contar sua desafortunada trajetória, de modo a alertá-lo quanto aos perigos de tentar se equiparar a Deus — por isso a referência a Prometeu, o titã que roubou o fogo de Zeus e o deu de presente aos homens, sendo duramente punido por isso.

Com uma narrativa elegante, a história é apresentada de forma gradativa, explorando o mistério, mas também se utilizando da minúcia descritiva na criação de atmosferas. O romance tem inúmeras cenas sombrias e assustadoras, que o localizam no gênero de terror gótico. No entanto, não se deve reduzi-lo a isso, pois o texto pode ser lido por diferentes perspectivas:

Em primeiro lugar, o romance é considerado a primeira obra de ficção científica da história, uma vez que aborda a geração de vida por meio de galvanização. Na juventude, Frankenstein flerta com os alquimistas até que se desilude, mas seu fascínio pelo elixir da vida acaba se transferindo para outras abordagens das ciências naturais, com estudos da obra de Luigi Galvani e de Erasmus Darwin (avô de Charles Darwin). E é com um olhar crítico que Shelley vai desenvolver essa história.

Mary Shelley, assim como seu esposo Percy e o amigo Lord Byron, integravam o grupo da segunda fase romântica da literatura inglesa. A escola romântica se opunha ao racionalismo predominante durante a revolução industrial, por isso a crítica à hipervalorização de uma ciência que, supostamente prezaria pelo bem estar humano, mas acabava incorrendo, muitas vezes, na negligência e na violência contra o indivíduo.

A estética romântica também se mostra na abordagem subjetiva na natureza, na qual essa se transforma de acordo com os sentimentos do personagem. As tormentas e geleiras espelham os turbilhões, o desespero e a  desolação dos personagens, contribuindo, também, para a atmosfera gótica da história. Esse recurso se opõe à postura cientificista que reduzia a natureza a mero objeto de estudo.

Essa crítica passa também por uma abordagem existencialista. A Criatura de Frankenstein, que jamais recebe um nome, surge ingênua e se corrompe no contato com outros homens, tal como os postulados de Rousseau. Seu maior dilema é a solidão advinda da repugnância que sua aparência causa nas pessoas. É o ressentimento decorrente desse isolamento forçado que faz a Criatura cometer atrocidades contra os homens. Seu processo de aprendizado passa por uma formação humanística: ele lê o mundo através da literatura e inicia uma reflexão filosófica acerca da própria existência. Essas reflexões permitem que ele se reconheça como um outro — sem uma história que o conecte à humanidade — e, nesse lugar de alteridade, ele é capaz de perceber a essência do homem e suas incoerências.

Uma abordagem psicossocial se verifica na recusa da aparência grotesca da Criatura pelo homem, em dois níveis que se interpenetram:  no primeiro, o homem teme o desconhecido, vê no diferente uma ameaça à qual reage de forma violenta; no segundo, há a crítica à superficialidade das pessoas, que julgam a Criatura pela aparência — com exceção do velho cego que, imune ao impacto de seu aspecto físico, aceita ouvir sua história.

Ainda sob uma perspectiva psicológica, pode-se dizer que a Criatura representa um duplo de Frankenstein, a parte recusada de sua interioridade. Enquanto Frankenstein se afasta da família em busca de sucesso científico, a Criatura incorpora sua face mais sentimental e imprecisa, amorfa e descontrolada, ávida por contato e interação.

Muitas outras leituras de Frankenstein ou o Prometeu Moderno podem ser feitas de forma proveitosa, e é impressionante como a maioria delas se mantém atual. Se a Criatura se rebela contra um poder que a relegou a um destino de desolação, nós também, em diferentes medidas, nos vemos manipulados por instâncias como a ciência, a tecnologia, o estado, a mídia. Por baixo do discurso de conservação da espécie humana que orientava Frankenstein havia muito de egoísmo e de intolerância, e esse discurso é utilizado com muita frequência na atualidade.

Tecendo um diálogo crítico com diversas correntes estéticas e teorias do conhecimento,  Frankenstein ou o Prometeu Moderno desenvolve, de maneira notável, uma leitura alegórica da natureza humana.